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  • Dra. Deise Miola

A Estrada do Colono

Atualizado: Mai 1

Em minhas aulas de ecologia eu costumava utilizar o Parque Nacional do Iguaçu como exemplo dos impactos das estradas em unidades de conservação e de como o efeito de borda pode se propagar e influenciar negativamente o ecossistema local. A Estrada do Colono, fechada desde 2001, era objeto de uma disputa judicial que se arrastava por quase 30 anos. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) negou o último recurso de um grupo de municípios vizinhos que insistia na reabertura do trecho.


A “Estrada do Colono”, como é popularmente conhecida, trata-se do antigo segmento da BR-495, que liga a cidade de Serranópolis a Capanema, no sudoeste do Paraná. Esse caminho, com cerca de 18 km, existe desde 1924 e foi transformado oficialmente em estrada na década de 1950 pelo governo estadual, para facilitar o trânsito e a colonização do oeste do estado. O trajeto corta uma das áreas mais protegidas do parque (zona intangível), onde a visitação turística não é permitida.


Devido aos impactos ambientais provocados pela estrada, como aumento do efeito de borda, facilitação da caça, destruição dos palmitais e o atropelamento de animais, o Ministério Público Federal obteve o fechamento da mesma em 1986. Em 1997, no entanto, a estrada foi reaberta ilegalmente. Somente em 2001, em uma ação envolvendo o Exército, a Polícia Federal e o Ibama, a estrada foi definitivamente fechada. Com o fechamento do trecho, o trânsito de veículos deve contornar o parque e a distância entre uma cidade e outra aumenta em torno de 170 km.


Dois projetos de lei ainda em tramitação no Congresso Nacional, entretanto, ainda ameaçam a integridade do Parque Nacional do Igual. Um deles prevê a criação da Estrada Parque sob um modelo ecológico, de uso sustentável e racional. De acordo com o texto, esse projeto deve ser precedido de estudos de impacto ambiental e incluir facilitadores de passagem para a circulação de animais. A pavimentação deverá ser feita com blocos de basalto, sendo vedado o asfaltamento de qualquer parte do percurso.


Mesmo que todos os aspectos ambientais sejam considerados, conforme prevê o projeto, a reabertura da estrada por si só consistirá em uma grande perda ambiental. Estudos prévios na região demonstraram que para amortizar o efeito externo são necessários um mínimo de dois quilômetros. Se considerarmos os 18 km da estrada, a área tomada pelo efeito de borda pode chegar a 72 km2 (veja o texto "O que é o efeito de borda?" aqui no blog). Ou seja, não se trata apenas dos 18 km da estrada, mas de uma área equivalente a 4% do parque. Praticamente, a mesma área destinada à visitação pública. Além dos danos à flora e à fauna, a abertura da estrada poderá aumentar os riscos de assoreamento dos rios, de poluição por lixo e metais pesados advindos de acidentes e facilitar a invasão de espécies exóticas.


O projeto de lei também prevê que o acesso seria limitado a carros de passeios, caminhonetes e coletivos para o transporte de turistas. Os maiores defensores do projeto, no entanto, são os grandes produtores das regiões oeste e sudoeste do estado. Qual o seu interesse nisso se não o de utilizar a estrada para transportar seus produtos? Uma vez aberta, seu acesso a ela não poderia ser progressivamente facilitado? Não é preciso conhecer muito bem o “jeitinho brasileiro” para prever o final dessa história.


O Parque Nacional do Iguaçu abriga um dos conjuntos de cataratas mais lindos do mundo e é considerado pela UNESCO Patrimônio Natural da Humanidade. É um dos poucos remanescentes de Mata Atlântica do sul do Brasil e o maior do Paraná. Possui uma altíssima biodiversidade, é a casa de inúmeras espécies ameaçadas de extinção e um dos poucos locais capazes de abrigar mamíferos de grande porte, como a onça pintada. Todo esse patrimônio estará ameaçado com a reabertura da Estrada do Colono. A discussão que se trava agora vai muito além do embate desenvolvimento versus conservação. Trata-se de uma questão moral. Vamos destruir o último reduto da vegetação original do sudoeste do Paraná?

Legenda da Imagem: À esquerda, a estrada caminhos do colono em 2003, quando foi aberta por invasão. À direita, foto da mata já recuperada, em 2012. Fotos: ICMBio. Fonte: Site OEco.


Deise Miola

Bióloga, PhD em Ecologia Conservação e Manejo de Vida Silvestre.

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