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  • Dra. Deise Miola

Diversificar é preciso

Nasci e cresci no Sudoeste Paranaense, uma região originalmente dominada por uma rica floresta de Araucárias. Apesar de poder admirar lindos pinheiros pela janela de casa todos os dias, desde criança sempre vi muito mais campos de soja e trigo do que florestas nativas. Ainda hoje, quando viajo de carro pelas estradas paranaenses, chego a ficar assustada com a imensidão dos campos verdes que parecem não ter fim. Tento imaginar como seriam aquelas terras antes da colonização gaúcha e chego a conclusão de que nunca será possível saber o número de espécies que se extinguiram e calcular o tamanho do prejuízo.


Por quantos anos uma floresta de Araucárias (ou Floresta Ombrófila Mista, de acordo com a classificação do IBGE), poderia se manter em equilíbrio dinâmico se não houvesse a interferência do homem? Milhares talvez. Infelizmente os impactos aconteceram e, atualmente, a única espécie de pinheiro genuinamente brasileiro, a Araucaria angustifolia (Pinheiro-do-Paraná) se encontra fortemente ameaçada, em decorrência da exploração massiva da floresta. Essa substituição de ecossistemas naturais por cultivos agrícolas que ocorreu no Paraná, ocorreu também no mundo todo e tem sido um dos fatores que levaram à atual crise da biodiversidade.


A perda de biodiversidade é apenas um dos muitos impactos provocados pelo modelo agrícola atual. A produção de alimentos alterados geneticamente (como aquelas frutas sem sabor que você compra no supermercado) e contaminados com fortes doses de pesticidas, são apenas um outro exemplo desses impactos. É claro que não se pode renunciar à produção agrícola em prol da preservação de todas as florestas do mundo. O outro extremo, entretanto, também não é possível.


As florestas nativas são ambientes bastante diversos. Ou seja, existe nesses locais muitas espécies, de variedades genéticas e de relações entre os seres vivos. Essa diversificação é responsável pelo equilíbrio e manutenção do ecossistema. Quando se retira a floresta para implantação de uma monocultura qualquer, se substitui um ecossistema heterogêneo e estabilizado por um sistema homogêneo que precisa de interferências externas para se manter.


Em outras palavras, quanto maior o número de espécies (e de relações entre essas espécies), maior a estabilidade do ambiente. Isso significa que, quanto menor for o número de espécies cultivadas em uma determinada área, menor será sua capacidade de auto-manutenção e maior será a necessidade de uso de fertilizantes e pesticidas. E é justamente por isso que quanto maior a área de uma monocultura, maiores devem ser os investimentos no controle de pragas.


As relações ecológicas que existem na natureza seguem uma lógica semelhante à da “lei da oferta e da procura”. Quanto maior a disponibilidade de um recurso alimentar para um ser vivo, mais ele se reproduz. Por outro lado, se o alimento se torna escasso, a reprodução diminuiu ou até mesmo deixa de existir. Sendo assim, como você imagina ser o comportamento reprodutivo da Anticarsia gemmattalis (lagarta-da-soja) quando se depara com centenas de hectares de soja verdinha?


A diversificação das culturas não só diminui a incidência de pragas, como também favorece a manutenção dos nutrientes no solo. Os sistemas agroflorestais são bons exemplos disso e de como se pode melhor a qualidade dos alimentos produzidos, diminuindo custos e preservando parte da diversidade natural dos ecossistemas. Os sistemas agroflorestais combinam o plantio de espécies arbóreas lenhosas (como árvores frutíferas ou madeireiras) com cultivos agrícolas e/ou criação de animais.


Um bom exemplo de sistema agroflorestal bastante rentável é o cultivo do café orgânico sombreado por frutíferas, como abacate, açaí, cacau, dentre outras. Nele, as árvores contribuem para aumentar a fertilidade e reter a umidade no solo, aumentando a produtividade do café. Uma outra opção é consorciar espécies arbóreas às pastagens. Além das árvores reduzirem os riscos de erosão e melhorar a qualidade do pasto, elas também provocam um maior conforto térmico aos animais, o que reflete diretamente no aumento da produção de leite, carne ou lã.


Outro benefício importante da diversificação de culturas é o aumento da rentabilidade para o produtor. Além de diminuir custos em muitos casos, é possível produzir mais em um espaço reduzido, com colheitas em diferentes épocas do ano. O pequeno agricultor que investe em sistemas agroflorestais fica menos vulnerável aos prejuízos financeiros em decorrência de variações do mercado, porque não tem toda sua produção centrada em um único produto.


A diversificação das culturas é, além de uma alternativa ecológica e mais saudável para a produção de alimentos, uma opção socialmente justa para a manutenção da agricultura familiar e para a fixação das pessoas no campo. Aliada a outras técnicas agroecológicas, os sistemas agroflorestais representam atualmente a melhor (e talvez a única) alternativa viável para aliar produção agrícola e conservação ambiental.

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