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  • Dra. Deise Miola

O que é efeito de borda?

Atualizado: Abr 29

Há diferença entre uma mata de 10.000 hectares (ha) e 1000 pedacinhos de 10 hectares de floresta? Quantitativamente pode não haver diferença nenhuma. Afinal, os 1.000 fragmentos de 10 ha possuem a mesma área que o fragmento maior (10.000 ha). Mas em se tratando de ecologia, há alguma diferença?


A medida que a urbanização e as áreas agrícolas aumentam, gradativamente os ecossistemas naturais vão se reduzindo a pequenas manchas isoladas na paisagem. A visão popular é que essas manchas são apenas uma amostra de um grande ecossistema, apenas reduzida a um tamanho menor. Não é isso, entretanto, que demonstram os diversos estudos de biologia da conservação realizados em todo o mundo.


Quando um ambiente natural é divido em pedaços menores, dizemos que ele sofreu um processo de fragmentação. Para entender os efeitos da fragmentação florestal sobre a saúde do ecossistema, o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), realizado no norte de Manaus, vem estudando há várias décadas o que ocorre com quatro fragmentos de floresta amazônica após terem sido isolados por desmatamentos. Os pedaços de floresta analisados possuem 1, 10, 100 e 1000 hectares e em todos eles os resultados das pesquisas tem sido preocupantes. Em ambos os casos, a floresta morre de fora para dentro por um processo denominado “Efeito de Borda”.


O efeito de borda é um conjunto de alterações físicas e bióticas que ocorrem nos ecossistemas devido à abertura de clareiras e ao desmatamento em seu entorno. Quando um pedaço de mata passa a estar cercada por áreas abertas ocorre um aumento da incidência de luz solar no entorno do fragmento. Essa maior luminosidade provoca também aumento da temperatura do solo e diminuição da umidade do ar. Além disso, devido à abertura das áreas no entorno, as árvores que estão na borda do fragmento ficam mais expostas ao vento, o que as torna mais vulneráveis à queda, uma vez que em seu hábitat original (o interior da mata) praticamente não venta. Com a queda das árvores mais externas, a borda vai adentrando a floresta e encolhendo cada vez mais o fragmento.


Em geral, a borda da floresta passa a ser formada por uma vegetação densa e fechada, quase que intransponível. Devido à mudança no microclima da floresta, algumas espécies mais adaptadas à alta insolação (as heliófitas) começam a se desenvolver, a medida que as plantas adaptadas à germinar na sombra (as ombrófilas) vão desaparecendo. Assim, o fragmento passa a ser tomado por espécies arbustivas e cipós, com uma ou outra árvore adulta que ainda teima em persistir no local. A aparência do ecossistema é de uma grande “capoeira” e, nessa fase, a recuperação natural é quase que impossível, uma vez que as plântulas (pequenas mudinhas) das árvores da floresta original não conseguem se desenvolver naquele ambiente.


A mudança na estrutura da floresta afeta também a comunidade de animais. Muitos insetos, que se relacionam bem com as plantas heliófitas, tendem a aumentar no fragmento. Já alguns vertebrados que só sobrevivem no interior das matas desaparecem rapidamente. Os anfíbios, como sapos e rãs, que são sensíveis a perda de umidade são geralmente os primeiros a serem afetados pelo efeito de borda. Com o avanço da borda para o interior do fragmento, os pássaros menores que fazem ninhos em árvores, ficam cada vez mais expostos à predação por aves de rapina e também desaparecem.


Os resultados do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF) têm demonstrado que em fragmentos menores (de 1 a 10 ha), o efeito de borda pode se estender por toda a área. Já em fragmentos maiores, com centenas de hectares, o efeito de borda é menos intenso, mas mesmo assim muito perceptível. Mesmo os fragmentos bastante grandes são bastante diferentes da mata original, pelo simples fato de serem fragmentos. Ou seja, uma mata de 10.000 ha e 1000 pedaços de mata de 10 ha cada, são sim muito diferentes em termos ecológicos. Essa diferença pode ser crucial para determinar a vida ou a morte de um ecossistema.


Como sobrevivem as espécies em um ambiente fragmentado? Há possibilidade de diminuir os impactos provocados pelo efeito de borda? Quais são as implicações práticas desse problema? Ao longo das próximas semanas é o que tentarei responder. Não perca os próximos artigos da série.


Deise Miola

Bióloga, PhD em Ecologia Conservação e Manejo de Vilda Silvestre.

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